Deputado federal do Rio Grande do Sul foi processado por receptação de jóias roubadas e favorecimento à prostituição, na década de 1980. Absolvido pela justiça, foi expulso do partido (PMDB), filiando-se ao PTB. Tendo agredido colega vereador da câmara municipal de Santa Cruz do Sul, naquele Estado, reparou o ato por meio de doação assistencial compulsória. Depois, agrediu secretário da diocese da cidade, tendo o crime prescrito. Há, atualmente, outras oito investigações em andamento contra ele no STF, segundo noticia revista semanal.
Apesar do panorama revelador da vida pregressa desse político e de sua personalidade, o deputado disse, com arrogância, que tanto ele, quanto a mulher e o filho, ganham o que quiserem lá no seu reduto, o que é confirmado pela sua última eleição à câmara federal com mais de oitenta mil votos. Antes se elegera, por duas vezes, vereador, prefeito e deputado estadual. Hoje, a mulher é prefeita e um dos filhos é vereador em Santa Cruz do Sul.
O cara tem realmente grande influência na sua região, sabe se “diferenciar” de seus pares e “tá nem aí...” com as notícias a seu respeito. Se é bom ou mau político, os eleitores do deputado gaúcho talvez possam opinar melhor sobre seu comportamento.
A maioria dos eleitores deste enorme país tem memória curta quando elegeram novamente Collor, Severino, Barbalho, JP Cunha e outros, pouco se lembrando ou se importando com as acusações que sobre os ombros desses políticos pesaram ou ainda pesam.
O deputado gaúcho, mesmo de ficha suja, consegue agradar aqueles que o apóiam. Mesmo sofrendo várias investigações, o deputado gaúcho não fugiu à regra de se eleger, como tradicionalmente aqui acontece.
Em entrevista a jornalistas ponderou o deputado gaúcho, na qualidade de membro do Conselho de Ética da Câmara, que “estava se lixando para a opinião pública...”.
É que, quando indagado sobre o que iria fazer, como relator de investigação do colega deputado federal mineiro, dono do “Castelo” de 25 milhões, pela prática de irregularidades com a verba indenizatória, que beneficia parlamentares na cobertura de despesas no exercício do mandato, respondeu que não cabia nenhuma punição a ele.
Sua execrável, mas realística fala, está causando grande alvoroço entre os políticos, principalmente.
Um jornal paulista, em editorial, salientou que a resposta do deputado gaúcho era uma verdade amarga.
Será?
Talvez em outro país ou em outros tempos, quem sabe num futuro muito distante, lá pelo quinto milênio (!), a resposta poderia ser tida como verdade amarga e até causar perplexidade. Esse não é o caso dos atuais políticos brasileiros, dado que tudo que aqui acontece com eles pouco importa, eles mesmos é que resolvem seus problemas, não levando em conta a opinião daqueles que lhes outorgaram poderes de representação.
Aliás, os cidadãos de bem assistem todos os dias pelo menos a um escândalo envolvendo políticos e o governo. Tais acontecimentos com o passar do tempo cairão tranquilamente no esquecimento, o que tem possibilitado que os mesmos políticos envolvidos voltem à vida pública na eleição seguinte.
Verdade amarga tem sido, isto sim, a vida dos eleitores sempre obrigados a votar em pessoas aéticas, inescrupulosas e tudo numa boa. Ninguém é punido, a turma do “deixa disso” aparece para apagar o fogo, tudo porque o mau político, mesmo sob investigação pela prática de alguma ilicitude pode continuar se candidatando e se elegendo, o que é um absurdo na legislação eleitoral em vigor.
O mau político é até recomendado pelo partido a renunciar para não ser cassado e poder voltar depois na próxima eleição.
Para o sujeito ingressar numa empresa ou mesmo num clube recreativo ele deve apresentar folha corrida, o que não acontece com os políticos candidatos. Currículo é uma palavra que não existe no vocabulário deles, diferentemente do que soe acontecer nas empresas, quando o mais importante para a conquista da vaga é a experiência de vida profissional, as aptidões e qualidades do pretendente.
Dos políticos candidatos ao Legislativo ou ao Executivo, deveria ser exigido conhecimento qualificado, técnico e prático, para poderem exercer seus mandatos, sem falar em idoneidade...
Daí porque não causa nenhuma surpresa o fato, a verdade corriqueira, de serem eleitos políticos desonestos, corruptos e até criminosos.
A fala do deputado federal gaúcho de estar se “lixando...” não é novidade para quem conhece suas manifestações incomuns e até bizarras. Seu pronunciamento inusitado, de cutucar seus pares “com vara curta...”, talvez tenha causado maior espanto pelo fato de ele, antes, ter presidido o Conselho de Ética da Câmara.
O deputado gaúcho chegou a comparar o caso do deputado-“castelão”, sob seus cuidados como relator, com o episódio das passagens aéreas, justamente para concluir que não cabe a este nenhuma punição.
Aliás o desfecho do caso das passagens aéreas chega às raias do ridículo, mas se enquadra perfeitamente no contexto de conhecida e velha rotina não só do Legislativo, como dos demais poderes da República. Para o chefe da nação, dar passagem aérea da cota dos políticos para outras pessoas não é nenhum fato novo, lembrando o presidente outro dia, que no seu tempo de deputado federal, habitualmente agia assim.
Antiga é a política da rapinagem. Ela pode até chocar num primeiro momento, estando longe de causar os efeitos de “a verdade dói...” ou ser amarga.
Verdade amarga, esta sim, tem sido a tolerância que os brasileiros têm de suportar quando o governo, qualquer que seja ele, coloca os maiores obstáculos ao seu alcance para deixar de cumprir com suas obrigações determinadas por decisão judicial definitiva, por meio do mecanismo reprochável do pagamento dos precatórios. O pior é que agora o governo e seus comparsas pretendem mudar a lei dos precatórios para se locupletar, ainda mais, às custas dos pobres cidadãos. A mudança seria mais um passa-moleque aos brasileiros, como o foi a poupança confiscada, na era Collor, até hoje pendente de solução, os responsáveis tirando o corpo fora: o governo e os bancos. Também foi assim no caso do compulsório sobre veículos e combustíveis, ambos tidos como inconstitucionais, mas poucos recebendo de volta seu dinheirinho.
Verdade amarga tem sido a árdua, porém inútil luta dos aposentados, nunca reconhecidos como força valiosa do desenvolvimento, de terem de se conformar com as esmolas da previdência, mesmo que tenham contribuído com as mais altas alíquotas, além de suportarem, ao longo do tempo, incríveis perdas na atualização monetária dos parcos valores recebidos.
Verdade amarga tem sido a simples lembrança da corrupção do “mensalão”, cujo processo investigatório se encontra no STF em poder do ex-procurador Barbosa, que foi levado por Lula à condição de ministro do Supremo, em cujas mãos está o maior número de processos pendentes de decisão naquela casa. O ministro, o primeiro de cor investido naquela alta corte, parece não gostar de dar decisões, já que tem sido useiro e vezeiro em criar caso com a maioria de seus colegas de trabalho. Outro dia chegou a destratar o ministro-presidente, durante uma discussão em processo de interesse de servidores públicos, na qual o aludido ministro antes dela se ausentara, intervindo então sem nenhuma objetividade, mas de forma grotesca, destemperada. Teve comportamento incompatível com o cargo de um ministro, inclusive desconhecendo comezinhos princípios da hierarquia, quando alardeou que o senhor presidente do STF “estava denegrindo...” o Judiciário...
Verdades amargas têm sido as notícias diárias mostrando mais um caso de corrupção dentro do governo, o que, infelizmente, não mais sensibiliza a sociedade.
Verdade amarga tem sido aos cidadãos ter de suportar toda uma mídia venal que só fala bem do governo e de seus programas sociais, onde também grassa a corrupção impune e esconde suas mazelas.
Verdade amarga tem sido assistir às atividades lamentáveis dos homens públicos em todos os escalões, senadores, deputados e vereadores, cada um puxando a brasa pra sua sardinha, e o eleitor ser obrigado a perder tempo e dinheiro, ao se dirigir à urna, sob pena de sofrer as conseqüências mais estapafúrdias e imagináveis, dentre elas não poder tirar passaporte para se locomover livremente pelo mundo afora. Como o Judiciário brasileiro foi feito nos moldes do sistema norte-americano, porque não copiar também seu Legislativo?
A maior das verdades amargas, mas que também já virou verdade corriqueira, é que o Brasil é o país da impunidade.
Ainda que a manifestação do deputado gaúcho do Conselho de Ética da Câmara possa parecer incomum, apontou para uma ferida que come por todos os lados no Legislativo, e demonstra mais uma vez que a câmara federal é dos intocáveis. Neste pobre país, as práticas irregulares, ilícitas vão continuar acontecendo, eis que nosso sistema democrático existente é falho e está pobre.
A casa das leis, onde atuam mais de “trezentos picaretas”, segundo enfatizou o atual chefe de estado, onde as verdades deveriam ser amargas, não passam de costumeiras.
Não seria preferível que não mais existisse a casa das leis?
Para o país seria um alto benefício fosse fechado esse Legislativo pífio e corrupto que está aí. O país se livraria de suas despesas infindáveis e de outras idiossincrasias. O país não teria de tolerar a “cara de pau” dos deputados ao proporem aumentos de salário para si próprios para compensar a “perda” das passagens aéreas...
A fala do deputado gaúcho incomodou, para não dizer interferiu, na rotina do bem bom do Legislativo, deu uma sacudida, mexeu com o trivial, quebrou o lugar-comum.
Os incomodados que se retirem seria a palavra de ordem. Todavia, provavelmente amanhã os deputados federais estarão se jactando: o deputado gaúcho escafedeu-se do Conselho de Ética da Câmara.
A verdade corriqueira é que todo político, não só o deputado gaúcho, está sempre se lixando com a opinião do eleitor... |