Sempre gostei de apitos. Cada um deles tinha um significado marcante, diferente para mim. O primeiro apito que chegou aos meus ouvidos foi o do guarda-noturno. Diziam que ele soprava o apito para afugentar os gatunos da noite, os ladrões do escuro, lá na minha cidade. Geralmente, depois das dez da noite o vigia, subvencionado pela prefeitura, passava na minha rua à pé ou de bicicleta. Só o assobio do guarda-noturno já causava frisson e arrepio. Para minimizar a emoção, a saudosa tia Benvinda recomendava rezar pedindo proteção a São Dimas, aquele ladrão que se tornou famoso, virou santo, crucificado ao lado do nosso salvador.
Imagine se hoje os guardas-noturnos agissem da mesma forma como antigamente. Como a população cresceu, bem como a quantidade de larápios, isso obrigaria as autoridades a disporem de um maior plantel de guardas para combatê-los, tarefa quase impossível pelo alto custo e inconveniências. Optou-se pela patrulha motorizada a distância, substituindo-se o apito misterioso, enigmático do guarda-noturno pela sirene infernal.
Lindo som mesmo era o do apito do trem, da maria fumaça ou da máquina elétrica. O trem sempre apitava antes de partir da estação, quando o chefe do trem dava dois apitos, iguais aos dos juízes de futebol, e o maquinista respondia com dois outros apitos, pondo em seguida o trem em movimento.
À noite ouvia-se apitos esparsos das máquinas fazendo manobras no pátio da estação e outras vezes apitavam para alertar os motoristas nas passagens de nível da cidade. No silêncio da noite o apito do trem tinha um significado romântico, nostálgico, parecido com o apito de navio no porto. O apito do trem também expressava pura alegria ao passar por algum lugar especial, mostrando uma saudação àqueles que ficavam. Na passagem do ano as locomotivas faziam eco aos demais sons da noite mais esperada e alegre, concordando com o rompimento do novo ano. Também os navios e barcos davam seus apitos gostosamente, nesse grande dia.
O americano tem mania de colocar apitos de trem ou de navio nos filmes cinematográficos para mostrar que a cena se desenvolve na noite ou madrugada.
É pena que hoje o apito de trem quase desapareceu, pois praticamente acabaram com os trens. O metrô das grandes cidades ao partir emite som irritante que está longe de ser comparado ao apito gostoso do trem. Já os poucos navios só são vistos e ouvidos pelos passageiros embarcados ou pelas populações das poucas cidades portuárias.
O apito que todos nós ouvimos hoje também não é do guarda-noturno, personagem quase extinto. Ladrões atacam com carros blindados, metralhadoras e granadas de grosso calibre, forças do mal não combatidas adequadamente pela polícia. O cidadão se sentindo desprotegido fica em casa trancafiado, chamando por São Dimas.
O apito mais em uso, apesar da alta tecnologia, continua sendo o apito dos juízes ou árbitros de futebol.
E olha que esses apitos têm dado o que falar, ultimamente.
É que muitos juízes de futebol, que sempre foram (e continuarão) chamados de ladrões pelos torcedores, antes mesmo de darem início às partidas, além de suas genitoras levarem o pato ao serem "homenageadas" por eles, hoje contam com um fiscal virtual de suas ações. Os recursos da TV, fotos, o filme do celular do torcedor e outros equipamentos avançados mostram no mesmo instante o deslize praticado pelo árbitro.
Como a Fifa até hoje não se acostumou a dar ouvidos a tais recursos técnicos que poderiam acarretar, segundo ela, mudança no resultado das partidas, proclama que sempre a decisão do árbitro é soberana.
Já está a Fifa, todavia, procurando mudar de atitude em razão de recente acontecimento verificado na partida de futebol entre a França e a Irlanda, nas eliminatórias para a Copa do Mundo do próximo ano de 2010, quando conhecido atacante francês usou a mão de forma ilícita para propiciar que seu companheiro de seleção fizesse o gol salvador da classificação, o que gerou grande revolta em todo mundo esportivo.
A Fifa tem uma grande bananosa nas mãos para resolver para que atos como esse não se repitam.
Aqui no pobre campeonato brasileiro erros de todos os tipos têm sido cometido pelos árbitros: gol legítimo anulado, impedimento inexistente, falta dentro da área não marcada ou marcada fora, briga entre jogadores de times diferentes ou da mesma equipe, tudo numa demonstração de falta de conhecimento da regra ou de sensibilidade, cochilada, vontade de causar polêmica ou até intenção de favorecer outro clube.
Como o campeonato é longo, rende bons frutos aos participantes e há grandes interesses econômicos envolvidos, nosso futebol está longe de ser o melhor. Não fosse a interferência direta e repetitiva nos resultados por árbitros despreparados ou mal intencionados, a grita dos prejudicados não seria tão intensa e incisiva.
Não adianta nada punir o árbitro, afastá-lo depois de um deslize lamentável causador de um enorme prejuízo ao clube, porque aí Inês é morta, tudo foi para o espaço e ninguém responde pelo dano causado.
Árbitros desse jaez deveriam ser eliminados do quadro das federações. E pensar que alguns desses gajos podem até ir apitar na próximo mundial da Fifa.
Infelizmente, os maus árbitros cumprem só uma pequena penitência, pois suas malévolas ações continuam a ter o referendo dos tribunais esportivos. Estes são useiros e vezeiros na produção de decisões estapafúrdias, não conseguindo se livrar da forte pressão dos clubes interessados e da mídia tendenciosa, que refoge de seu objetivo de só informar para tomar partido deste ou daquele.
Há muito juízes de futebol que deveriam engolir o apito, tamanho seu despreparo para dirigir partidas de futebol, tamanhos os erros crassos cometidos costumeiramente, tamanhos os deslizes, as más intenções para favorecer um clube em detrimento de outro.
Há muitos clubes que preferem ganhar no apito seus jogos, graças aos mesmos defeitos de conduta de certos árbitros.
De uma forma ou de outra essa panorâmica do nosso futebol não vai mudar, nem a Fifa talvez não consiga seu intento em querer minimizar a indignação de uma Irlanda.
Aqui, provavelmente, os clubes cariocas continuem a ter mais prestígio do que os demais times do país...
Pode até ser que um clube carioca seja o campeão deste ano, sendo bem provável que um clube carioca pelo menos seja rebaixado para a segunda divisão.
Qualquer que seja a hipótese levantada uma coisa é certíssima: nem um, nem o outro rezaram para ter a proteção de São Dimas contra os ladrões...
Já os árbitros do futebol terão cada vez mais de rebolar, de acertar suas decisões, não deixar nenhuma dúvida em suas ações, pois carregam consigo o estigma de serem sempre considerados ladrões, como Dimas. Mesmo sendo crucificados, jamais virarão santo. |